Corpo,

"A culpa daquela menina"

12:37 Kauana Costa 0 Comments



Lendo uma postagem do Blogueiras Feministas, uma delas me chamou a atenção A culpa daquela menina. O texto fala sobre a primeira menstruação de uma menina e de como essa menina reage diante disso.

Não deu pra não deixar de lembrar da minha primeira menstruação.

Para muita gente falar sobre isso é um tabu. Confesso que há um tempo atrás, eu também não gostava de falar sobre isso, pelo contrário, sentia-me muito incomodada por sinal.

Aconteceu numa manhã de segunda-feira enquanto eu tomava banho para ir à escola. Eu já tinha ouvido falar sobre isso, e por incrível que pareça, da boca da minha mãe. Entretanto, eu não queria aceitar a ideia de que aquilo estava acontecendo comigo. Eu me recusava a aceitar que o meu corpo mudava independentemente da minha vontade. Eu tinha 11 anos.
Senti-me tão angustiada que não queria nem contar para a minha mãe. Aliás, eu não queria que ninguém soubesse. Se era algum conceito deturpado internalizado, eu não sei, só sei que eu naquele instante me senti perdida e desesperada. Eu não queria ter aquela “maldição”, aquele “estigma”.
Apesar de ouvir falar sobre ela, eu não tinha a menor ideia de como lidar com a nova transformação e mais, não sabia lidar com a “repercussão” que isso iria trazer.
Minha mãe é a nona irmã de quatorze filhos, e por ser uma das mais novas via as mais velhas tornarem-se moças (como se houvesse um estágio intermediário para se tornar mulher) e ansiava para menstruar também.
Eu não, eu não tinha pressa.




Não queria que ninguém soubesse, mas minha mãe contou para o meu pai e para outras pessoas com um orgulho que me incomodava bastante. Foi a maior revolta da minha vida. Ter algo que era só meu ser divulgado como se fosse motivo de felicidade enquanto o que eu mais queria era sumir.

É… todos os meses a mesma coisa e ao mesmo tempo não é a mesma coisa.

É o mesmo ventre que se prepara e ao mesmo tempo desfaz tudo para voltar a fazer novamente. É um outro mundo. Um mundo desconhecido até pelas próprias mulheres, ou por sentirem nojo de si mesmas ou por terem receio ou até medo de descobrirem seu próprio corpo.

Antigamente, as mulheres que menstruavam não podiam sair de casa, não podiam tomar banho e muito menos “enguiçar” um homem, pois ele poderia morrer seco, murcho.

Essa mentalidade existe até hoje.

Conheço inúmeras mulheres que enquanto menstruam evitam comer certos alimentos, evitam fazer exercícios físicos e até evitam usar roupa branca, como se uma dessas coisas fosse denunciar que elas menstruam. Não adianta, nascemos mulheres e isso é inerente a quem tem útero, a quem tem um mundo-universo consigo.

Por que se envergonhar ou se condenar? Por que achar que menstruar é a marca do pecado? Se fosse assim, macacas e arraias não menstruariam também. Que eu saiba, Eva, em nenhum momento da Bíblia aparece como uma primata ou peixe. Eva era mulher.

Nós somos mulheres.

E eu cansei de ouvir, cansei de ver, cansei de gritar.

Meu sangue não é sujo. Minha vagina tampouco. É do meu ventre que pode nascer um filho, como posso dizer que meu corpo é sujo, impuro?

Jamais!

Sangrar todos os meses é um desconforto sim. Sentir dores também, mas faz parte da natureza feminina. Da inegável essência inerente às mulheres. Ser mulher é muito mais do que sangrar. Sangue é vida.

Menstruar não faz de mim uma mulher. Sangrar na primeira vez não faz uma “moça” virar mulher, muito pelo contrário. Toda mulher nasce mulher. Ela se torna mulher! Mas não porque um homem a desvirginou ou num conceito mais distorcido porque se tornou “moça”.

Eu sou mulher, porque me sinto mulher. Eu me fiz mulher.




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