Talvez uma despedida ou Estamos em manutenção


Olá, faz muito tempo que não posto aqui no blog e tenho meus motivos. Espero que vocês possam compreender. Iniciei um ciclo aqui, mas a verdade é que tudo que começa acaba. Parece um post de despedida, talvez até seja... Ainda não sei se estou encerrando o Bobolítica. Talvez comece algo novo. No mais, agradeço muito aos que estiveram ao meu lado, me apoiando, lendo e torcendo por mim... Um forte abraço... Logo mais, vocês saberão de mim.

Porque é tão fácil ser antifeminista no Brasil

O "fenômeno" do antifeminismo brasileiro não é algo novo, muito menos exclusivo do nosso país. Além disso, ser antifeminista não é um posicionamento crítico, mas sim uma construção forjada e importada para manter os paradigmas de uma classe historicamente dominante e mantenedora dos privilégios sociais.


Em seu artigo, Refutações ao feminismo: (des)compassos da cultura letrada brasileira, Rita Terezinha Schmidt tenta mostrar a trajetória do antifeminismo no âmbito do jornalismo cultural brasileiro assim como evidenciar o silenciamento sobre a opressão das mulheres e questões de gênero.

Existe uma evidente resistência dos meios de comunicação em atribuir conquistas feministas ao feminismo. Não estou aqui dizendo que é necessário exaltar o feminismo, mas estou ressaltando que determinados meios influentes ou não, insistem em mascarar ou maquiar essas conquistas usando termos como femininos ou de mulheres, mas nunca feminismo.

Como podemos observar, 

Vulgarizar o feminismo e associá-lo às noções de marginalidade e anacronismo para marcar a natureza de algo que não é bom, sadio e desejável para a sociedade brasileira tem sido parte da estratégia quase desesperada de parte de segmentos da elite intelectual, em sua tentativa de desqualificar os avanços sem precedentes das conquistas feministas em escala global [...] (SCHMIDT, 2006, p. 766).

Ou seja, não é algo isolado nem despretensioso. Existe uma tentativa simbólica de moldar os discursos para que o feminismo seja não só vulgarizado como também desacreditado, isto é, que perca totalmente sua credibilidade e legitimidade.

Resistência à ditadura: mulheres desempenharam um papel importante na luta contra o regime militar.

Algumas das estratégias ressaltadas por Schmidt ilustram didaticamente como é construída no imaginário coletivo a vulgarização e desvalorização do feminismo. Na edição especial da Revista Língua Portuguesa, de 2006, no artigo que tratava sobre Sexo e Linguagem, o autor do artigo se recusa a utilizar o termo feminista para referenciar as conquistas das mulheres, ao invés disso, são usadas expressões como ''avanços femininos'' e "conquistas femininas" sempre evitando "desembocar em patrulhas feministoides". Esse tipo de estratégia, aparentemente inofensiva, somente contribui para que as relações de poder permaneçam vigentes, sobretudo, mantendo as feministas longe da sociedade como um todo, pois elas são perigosas demais para serem levadas a sério.

Uma outra estratégia empregada pela patrulha dos "bons costumes", é vermos difundidos por aí artigos de autores renomados, ridicularizando e/ou rebaixando mulheres feministas brasileiras, como foi o caso do texto ácido do crítico Wilson Martins à feminista brasileira Nísia Floresta. O artigo, publicado no Jornal O Globo online, em 11 de agosto de 2005, chama-se O universo feminino de Nísia Floresta. Salientando que a expressão universo feminino já é por si só uma forma de rebaixamento da figura da Nísia Floresta.

Martins esboça críticas fortes à Nísia Floresta por ela se apropriar "erroneamente" do texto de Mary Wollstonecraft. Em 1792, na Inglaterra, Wollstonecraft escreveu o seu A Vindication of the Rights of Woman e em 1832, em Recife, Floresta publica Direitos das e injustiças dos homens. Martins quer apontar a incoerência de Floresta em exigir os direitos das mulheres e se utilizando de boa retórica, quer provar que Wollstonecraft fora incoerente primeiro, pois em 1790 tinha publicado Rights of Men. Ou seja, Martins defende que Wollstonecraft e Floresta queriam elevar as mulheres a uma nova categoria e para isso, ele se baseia na origem da palavra homem, que em latim designa a espécie a que pertencem os seres humanos, homo. Para Martins, são as feministas que inventaram o termo gênero e sem necessidade nenhuma.

O discurso de Martins nada mais é do que um

ato de fala cuja estrutura retórica é reveladora de como a argumentação, com vistas à persuasão, opera pelo recurso da citação, a qual acumula a força da autoridade justamente pela repetição para ratificar o poder do enunciado e reafirmar a posição do falante como agente de um discurso performativo, definido como prática significante em que a palavra não somente diz sobre algo, mas também constrói esse algo através de uma violenta interpelação (Op. Cit., p. 769).

Resumindo, o discurso de Martins implica numa desqualificação das conquistas feministas, relegando-as a um mero equívoco. E isso mais uma vez é contribuir significativamente para manter os interesses de um grupo de "sujeitos politicamente situados e localizados em um mesmo campo cultural e alinhados a uma mesma tradição" (Op. Cit., p. 769-770).

Além de apagamentos e da resistência em atribuir conquistas feministas ao feminismo, além de se apropriar da retórica e da argumentação repetitiva para desvalorizar o feminismo, outra estratégia que surge em meados da década de 1990 é atacar veemente o termo "politicamente correto" e usar como estandarte a figura da desconhecida Camille Paglia.

Sobre o caso Paglia, podemos dizer que ela caiu como uma luva para reforçar e manter os privilégios dos que estão muito bem situados no estrato social. Embora Paglia seja uma figura pouco conhecida entre as produções acadêmicas feministas norte-americanas, ela ganhou grande ascensão no Brasil, sobretudo, por causa de suas declarações bombásticas e equivocadas, totalmente descontextualizadas do histórico do feminismo no mundo. Como podemos perceber,

a propagação de suas declarações bombásticas como a de reformar o feminismo no segundo milênio, pois, em suas palavras, "não pode mais ser essa pregação de ódio aos homens", foi muito conveniente para os segmentos conservadores da mídia e da elite, que se deleitaram com suas críticas ao "politicamente correto", seus ataques ao feminismo acadêmico, o que acabou obtendo um reforço importante para a manutenção das práticas voyeuristas locais com relação às mulheres, bem como para a legitimação da visão de que os homens constituem a nova 'minoria' oprimida (Op. Cit., p.772).

Importar uma autora desconhecida em seu próprio local de atuação e, sobretudo, para ridicularizar e rechaçar o feminismo teve efeito duradouro na memória brasileira. O que vemos sendo reproduzido nas redes sociais e nos grandes veículos de comunicação, muitas vezes através de textos de autores renomados no cenário jornalístico cultural não é uma novidade, entretanto, não é por não ser novidade que isso deve continuar sendo reproduzido e, pior, perpetuado de geração em geração.



Reconhecer o discurso velado que ridiculariza o feminismo e as conquistas das mulheres é necessário para podermos distinguir quando tachar feministas de feminazis é uma dessas estratégias de silenciamento e violência simbólica. Desqualificar, silenciar, deslegitimar o feminismo no Brasil é um processo antigo e que continua sendo ricamente utilizado por autores renomados e reproduzidos por pessoas comuns por aí a fora. É muito fácil ser antifeminista no Brasil, porque é muito mais fácil reproduzir discursos velados, carregados de violência sobre uma minoria representativa na sociedade.

Entretanto, é importante reconhecer essas práticas para se tomar um posicionamento crítico e sério acerca dessas estratégias, pois como Foucault assinala, quem detém o discurso, detém o poder. E se existe um discurso tão antifeminista é preciso debruçar-se sobre isso e entender o que há por trás dele e por que toda essa resistência, ódio e aversão: o feminismo é mesmo tudo o que dizem ou quem de fato se beneficia com essa péssima imagem construída do feminismo?

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
MESSIAS, Mari. O que está por trás do termo "feminazi". Disponível aqui.
SCHMIDT, Rita Terezinha. Refutações ao feminismo: (des)compassos da cultura letrada brasileira. Estudos Feministas: Florianópolis, 14(3): 272, setembro-dezembro/2006. Disponível aqui.

Sobre Literatura Erótica, Pornografia, Erika Lust, Sasha Grey, Stoya e Feminismo

Ultimamente, ando vendo muitos filmes e lendo muitos livros, o que me faz pensar em várias coisas para falar e debater. Durante o dia, estou lendo Helena, do Machado de Assis e, à noite, antes de dormir, leio Juliette Society, da Sasha Grey. Isso mesmo que você leu. A Sasha Grey, aposentada das atuações em filmes pornôs, escreveu um livro erótico (que beira à pornografia, mas não é) em meados de 2013 e foi publicado aqui no Brasil pela editora Quinta Essência. E é exatamente por estar lendo um livro sobre literatura erótica que me senti inspirada para escrever sobre várias coisas que circundam esse universo visto por muitos como tabu e por outros como autoconhecimento.

Alguns disseram que o livro de Sasha Grey prometia torná-la numa segunda E. L. James, mas por favor, isso seria transformar o seu livro em algo menor, pequeno e/ou rasteiro. E não porque a história é melhor ou pior do que 50 Tons de Cinza, mas porque como literatura erótica, Juliette Society é superior em qualidade. Como assim? O romance de E. L. James gira em torno de um relacionamento abusivo, no qual o desvio sexual de Christian Grey tem origem em um trauma vivenciado por ele. O que relega o BDSM a uma prática de cunho doentio, o que não é verdade. Além disso, quase não há descrições das partes íntimas dos personagens, há pouca ou nenhuma referência a eles, o que é algo comum em textos eróticos, mas não em 50 Tons de Cinza, sem mencionar que a construção de como o BDSM é tratado no texto mostra um total desconhecimento ou, quem sabe até, preconceito da própria autora com relação ao assunto. Em Juliette Society, Catherine é uma estudante de cinema que tem um namorado, mas a vida sexual dos dois anda meio ruim. Mesclando o que seria fantasia da cabeça da personagem e o que realmente acontece com ela, Sasha brinca com a expectativa do leitor. O que lhe concede pontos positivos ao seu livro. Além do mais, é um texto que fala de sexo, que explicita o ato. E aí entra algo bastante complicado de se entender, o erótico pode ser explícito, mas nem sempre o pornô é.

Imagem retirada do site XConfessions.

Adentrando-se nesse universo ainda estigmatizado, vamos estabelecer algumas diferenças básicas: Sensualidade, Erotismo e Pornografia são coisas diferentes e nem sempre são complementares. O termo pornografia tem seu radical no grego, pórne, que era usado para designar prostituta e pórnos, que se prostitui. Mas a palavra só veio ser dicionarizada no final do século XIX, no termo em francês pornographie, que era empregado para designar a área da saúde pública dedicada à prostituição. Como e quando o termo se tornou o que conhecemos hoje, aconteceu não muito distante na linha histórica, na verdade, a palavra pornografia já era usada, num sentido mais crítico, para rechaçar alguns romances obscenos franceses. Mas apenas no século XX, o termo difundiu-se na acepção que entendemos hoje, mas sempre ligado à noção de venda.

Erotismo, que também tem sua origem lá no mundo grego, com o termo erotikós, significava a pessoa que tinha amor, paixão ou desejo intenso. Não é à toa que Eros é o deus do amor na mitologia grega (e não confundam com Afrodite, ela pode ser a deusa do amor, mas não do amor idílico e sim do carnal). Entretanto, muito se confundiu ao longo do real significado de erotismo e pornografia. O erótico não tem a finalidade de vender ou de excitar o cliente, digamos assim. O pornô está ligado, sobretudo, à ideia de venda, que está atrelada ao termo prostituta. O erotismo é permitido nas artes, mas nem sempre o pornô recebe mesmo tratamento, sendo rechaçado como categoria menor, sendo algo comumente taxado de sujo ou vulgar.

Já o termo sensualidade, tem mais coisas em comum com o erotismo do que se imagina. O que torna as duas palavras passíveis de confusão. Sensualidade está ligado às sensações, impressões. Se você já assistiu ao filme O império dos sentidos, de Nagisa Oshima, vai entender essa questão. A sensualidade muitas vezes se liga à necessidade de alcançar o êxtase através dos cinco sentidos. Resumindo tudo isso, poderia-se dizer que pornografia estaria ligada à devassidão sexual, à obscenidade e à indecência; erotismo estaria ligado à noção de luxúria, mas de forma idílica, como paixão ou amor pelas artes e, a sensualidade estaria ligada ao universo das sensações, dos sentidos, à lascívia e à luxúria propriamente dita.

Imagem retirada do site XConfessions.

Feita essa diferenciação, pensemos então em tudo o que lemos e assistimos. Como disse lá no início desse post, estou lendo literatura erótica, escrita por uma ex atriz pornô. O que poderia sair de proveitoso disso? Ela provavelmente só escreveu pornografia, já que não se pode esperar muita coisa de uma ex atriz pornô, não é mesmo? Errado. Sasha Grey não restringe seu livro a apenas uma descrição hardcore das cenas de sexo. Há muito mais além disso. Catherine não é uma simples personagem rasa. Ela é uma mulher que se sente vazia, que necessita colocar para fora suas experiências, suas fantasias, mas o namorado não compartilha disso. Ele a reprime, oprime suas fantasias e desejos, sobretudo, quando estes fogem do dito convencional. O que vai ser fator determinante para que ela acabe conhecendo a Juliette Society. Se formos prestar bem atenção, isso nos lembra bastante a Séverine, do filme Belle de Jour, de Luis Buñuel, no qual Catherine Deneuve faz o papel de uma mulher casada há um ano, mas que não permite que seu marido a toque ou que transe com ela, e com relação a isso, ele é extremamente compreensivo. Mas Séverine precisa urgentemente extravasar sua angústia, sua dor e é através do sexo, nesse caso, da prostituição, que ela alcançará a sua nulidade como ser humano, como mulher. E assim como Séverine busca algo que lhe falta, Catherine também busca. E quanto mais você lê, mais semelhanças você encontra entre essas duas personagens.

Mas o que explica a febre da trilogia 50 Tons de Cinzas, mesmo sabendo que o livro foge muito do que é esperado de uma literatura erótica? A verdade é que isso não interessa. Não é a complexidade da personagem. São as experiências vividas por ela e a identificação. Eu me imagino no lugar da personagem e essa troca fantasiada faz com que muitas mulheres se permitam, ao menos no imaginário, a experimentar formas diferentes de vivenciar sua sexualidade. Além disso, mesmo que muitos queiram esconder debaixo do tapete: Mulher também gosta de sexo e não só isso, elas também veem pornô tanto quanto homens. Saindo do universo literário, podemos perceber como pontos positivos do sucesso de 50 Tons de Cinza, a melhor aceitação pelo público feminino por esse tipo de leitura e a desinibição em se afirmar que já leu a trilogia da E. L. James. Isso favoreceu não só a busca pelo gênero como promoveu a demanda/produção desses textos.

Adentrando no universo dos filmes pornôs, pouca coisa mudou. E muito ainda precisa ser mudado. O pornô comercial que vemos em sites como Pornhub, xvideos, Redtube dentre outros, não oferece pornô especificamente para mulheres, elas não são o público alvo, até porque quem acredita que pornografia é apenas algo sujo, se engana. Pornografia é bem mais do que isso. É um discurso hegemônico de manutenção do prazer masculino. É uma ode ao prazer masculino. E isso é facilmente percebido nas cenas de sexo oral no qual a guria passa horas e horas chupando o cara para depois ele ejacular em seu rosto enquanto ela sorri. (Uma parcela muito pequena de mulheres curte essa prática e esse tipo de pornô não gera identificação entre a maioria das mulheres).



E por ver o cinema pornô como um discurso hegemonicamente masculino, surge Erika Lust. Não é a primeira vez que falo sobre ela aqui no blog, em postagem anterior falei um pouco sobre o seu projeto intitulado XConfessions. E o que seria isso? Muito simples. O projeto estimula que anônimos compartilhem alguma de suas experiências sexuais e as melhores viram curtas-metragens. O projeto é ousado e traz uma versão do cinema pornô totalmente diferente. Ou seja, mais real. Mais palpável. Mais fidedigno com os desejos reais de pessoas reais.

Em uma palestra para o TEDxViena, Erika fala sobre seu primeiro contato com o universo pornográfico e de como resolveu fazer cinema pornô. Vale muito a pena conferir na íntegra sua palestra. Infelizmente, o vídeo não tem legenda em português, mas dá para conferir tranquilamente com legenda em espanhol.



Para situar melhor, Erika inicia a palestra descrevendo uma cena de filme pornô para poder falar sobre seu primeiro contato com esses filmes. A sua reação não foi muito diferente da da maioria das mulheres. Eu mesma sempre associei filme pornô à submissão, opressão e humilhação feminina. Mesmo sem nunca ter visto um. Essa associação era tão intrínseca na minha cabeça, que eu preferia não assistir a nenhum, porque eu já sabia o que iria encontrar. E sim, há muitos filmes pornôs que mostram a mulher como objeto e ponto final. Ela está ali apenas para satisfazer o homem. Ainda em sua palestra, Erika fala algo muito interessante, que o pornô é um discurso, mas que só mostra um lado desse discurso: o prazer masculino. E isso lhe veio como um estalo, nossos filhos assistem pornô, mesmo que você faça o possível e o impossível para impedir, eles assistem e assimilam esse discurso. Motivada por esses dois fatores, Erika decidiu mostrar a outra face do discurso: o prazer feminino. E sim, pornografia feminista existe. E é muito bem recebida, sobretudo, pelas mulheres. Erika conta, que após concluir seu curso de direção de cinema, produziu um filme pornô. Este filme foi disponibilizado na internet e em tempo recorde, foi baixado por milhões de usuários. Você realmente acha que esses milhões de usuários eram apenas homens?

Quando conheci os filmes da Erika Lust, eu já tinha tido contato com o cinema pornô comercial. E a diferença para mim foi gritante. E isso me fez ver o pornô com outros olhos, de que é possível mostrar o sexo da forma mais natural, ou seja, em que existe o prazer masculino, mas também é protagonista desses filmes, o prazer feminino. Além disso, o surgimento de atrizes pornôs que fogem do estereótipo da Linda Lovelace, que ficou conhecida pelo filme Garganta Profunda, ajuda bastante a desmistificar essa aura pesada acerca dessas atrizes. A vida de Linda foi retratada em filme e ela lançou uma autobiografia falando sobre os abusos que sofreu. No entanto, o caso de Linda foi explorado de maneira leviana pelo movimento contrário à pornografia. Apesar de ser um movimento contra a indústria pornográfica, ninguém estendeu a mão para ajudá-la. É irônico isso, mas o fato é que Linda queria apenas levar uma vida digna e ninguém a ajudou nisso. Mas, felizmente, o caso dela não é universal. A prova disso é a Sasha Grey, que declarou certa vez que o que fazia em cena era consensual. Ela queria fazer aquilo, porque ela escolheu ser atriz pornô. Segundo Sasha, as pessoas precisam parar com a ideia de que mulheres não gostam de sexo pervertido. Spoiler: Elas gostam sim.

Stoya e Sasha Grey.

Além da Sasha Grey, temos também Stoya. Se alguém ainda acha que atrizes pornôs não têm nada a dizer ou a oferecer só porque fazem sexo para ganhar dinheiro, estão muito enganados. Stoya surpreende muita gente quando as pessoas descobrem que ela escreve textos muito bons sobre pornografia, feminismo, normatividade, heteronormatividade, o que de fato é beleza, etc. Para você ter uma ideia da Stoya que você nunca imaginou conhecer, saca só esse trecho escrito por ela aqui:


Para mim, a palavra feminista é repleta de conotações por vezes conflituosas. Quando as feministas lutam pelo direito de todos serem pagos de maneira justa, defendendo especificamente a correção das desigualdades entre o salário para mulheres e para homens, ou defendem o direito de acesso ao controle de natalidade para todas as pessoas com útero eu acho uma coisa maravilhosa. Quando as feministas perseguem alguém que não é biologicamente mulher ou infantilizam as mulheres que fizeram escolhas que as desagradam, eu acho muito ofensivo. Quando as feministas debatem se o ato de passar batom é algo que concede poder às mulheres ou não, eu acho trivial. Mas discordar de alguns dos extremos do feminismo não é a razão pela qual me sinto frequentemente desconfortável em me dizer feminista. Acho conflitante aplicar o rótulo a mim mesma porque raramente faço algo com o propósito específico de promover os direitos das mulheres. Mas evitar dar uma resposta direta sobre se sou feminista ou não é meio que fugir da responsabilidade. Me esquivar desta palavra, para mim, seria ignorar todas as mulheres que lutaram para me dar as vantagens que tenho hoje. Então aí vai: Oi, eu sou a Stoya. Minhas perspectivas políticas e eu somos feministas... Mas meu trabalho não é. [Para ler mais textos da Stoya, é só dar uma passada no site da Vice. Aqui você encontra todos os textos escritos por ela.]


Uma dupla que surgiu pra quebrar alguns paradigmas do cinema pornô é Mandy Morbid e Kimberly Kane. Mandy e Kimberly se conheceram em 2007 e a ligação das duas foi meio que imediata. Kimberly, além de atriz, é diretora. Ela costuma atuar em seus próprios filmes, muitas vezes ao lado de Mandy. Todo o roteiro flui da cabeça da Kimberly e é muito interessante o entrosamento entre as duas, porque o que uma pensa, a outra sabe exatamente como atuar. Aqui você pode conferir uma entrevista com a Mandy e Kimberly e aqui um vídeo-documentário no qual Kimberly e Mandy falam um pouco sobre o seu trabalho e das hipocrisias dentro da indústria pornográfica. Além dessa dupla, ainda posso citar o nome de mais duas porn stars que surgem como personalidades que fogem a anos-luz dos estereótipos sobre essa profissão. São elas, Annie Sprinkle e Asia Carrera.

Mandy Morbid e Kimberly Kane.

Falar sobre essas atrizes é mostrar um universo que desconhecemos. Um universo que nos é pintado como algo absolutamente hostil e sujo e depravado e reprovável. Mulher não pode ver pornô. Errado. Pode sim. E as mudanças na indústria pornográfica começaram quando a biografia de Linda Lovelace foi hasteada como uma bandeira pelos grupos contra a pornografia. Muito foi mudando, mas é claro, que muita coisa ainda precisa mudar. Erika Lust nasceu na Suécia, país que tem a disciplina de educação sexual como obrigatória no currículo escolar, mas mesmo assim, não existe nem lá e muito menos aqui uma visibilidade menos negativa sobre as atrizes pornôs. Veja bem, muitas delas podem não saber por que estão fazendo isso, muitas delas podem até sofrer abusos, muitas delas podem até se drogar, mas isso não é regra. Existem atrizes que sentem prazer com a profissão que escolheram. Elas não foram forçadas a ir fazer os testes. E saber que mulheres estão atrás das câmeras, não apenas a frente delas, já é um grande avanço para a mudança da indústria pornográfica. Como a própria Lust fala em sua palestra, é preciso que mais mulheres façam parte disso: como diretoras, como roteiristas e, sobretudo, como protagonistas.

Mas as feministas não são contra a pornografia? Mais uma vez reitero, o feminismo não é homogêneo. Existem feministas que são contra a pornografia, que a veem como algo ultrajante e degradante para a mulher. Elas veem o pornô como um retrocesso que reforça a supremacia do prazer masculino e a submissão da mulher. Mas existem as feministas que acreditam que o pornô deve ser um espaço também feminista. Como a Erika Lust falou, é preciso que a outra face da moeda seja mostrada. Se os jovens veem e assimilam o pornô comercial, é necessário que um pornô mais real que mostre o homem e a mulher como protagonistas do prazer também seja assimilado, mas para isso é preciso que exista quem faça esse trabalho. E assim como no cinema hollywoodiano em que a representatividade feminina é quase nenhuma, imagine no cinema pornô. Embora seja o corpo feminino que apareça em todas as posições confortáveis ou não, não é ela a protagonista. E isso precisa ser desconstruído e retrabalhado.

No entanto, essa mudança não é tão bem aceita pelas pessoas. Ver é mais chocante do que imaginar. Essas mudanças são mais fáceis, porém, ainda não muito frequentes, na literatura. Exemplo disso, são os livros que citei no início do post. A verdade é que quando vemos textos em que mulheres começam a ser sujeitos de seus desejos e taras, ainda há pessoas para criticar ou simplesmente pessoas com medo de se inteirar do assunto. O estrondoso sucesso da trilogia 50 Tons de Cinza é uma mostra disso. Uma mostra da abertura para esse tipo de leitura, mas ninguém sai por aí falando que passa a madrugada vendo pornô na aba anônima. Muito menos uma guria. Menos ainda se for a sua namorada, porque você tem a crente certeza de que ela nunca na vida faria algo assim. Mas entendam, quem ainda acredita que mulher não vê pornô: Ela vê, ela lê e reproduz. Mas ela é bastante seleta com relação ao que prefere ver e as tags mais buscadas são lésbicas, sexo a três e squirting, em sites como Pornhub, porque essas tags mostram muito pouco do sexo britadeira do qual muitas mulheres detestam/abominam. Mas quando mulheres invertem a ordem do jogo, enquanto o estranhamento e hostilidade aumentam, muitas delas encontram libertação ou inspiração nesses textos e/ou filmes.

Anaïs Nin.

Quando Florbela Espanca revolucionou a poesia portuguesa da época, chegando a ser considerada hoje a maior expressão feminina de todo o modernismo português, muita gente se escandalizou. Escandalizou-se porque Florbela falava através de um eu-lírico feminino que era sujeito e senhora de seu desejo, o homem, apenas objeto de sua cobiça. Imagine o nó na cabeça das pessoas e dos homens. Sobretudo, dos homens. Temos exemplos isolados de mulheres que surgiram na literatura como sujeitos de seus desejos e fantasias amorosas e sexuais, uma delas é Anaïs Nin. Que chocou ainda mais, já que muito do que ela escreveu é autobiográfico. Imagina uma mulher nos anos de 1930 falando tão abertamente sobre sexo, dando nomes aos órgãos genitais e seus variados apelidos. Isso chocou. Mas chocou porque era uma mulher que falava sobre aquilo. Sobre algo impuro. Indecente para uma dama. Que deveria, nunca na vida, se dar ao desfrute. E mais chocante ainda é ler O caderno rosa de Lory Lamb, de Hilda Hilst, e descobrir uma face da pornografia que ao mesmo tempo que excita alguns, causa repulsa. E isso gera uma ótima reflexão acerca do que realmente é excitante ou não na pornografia.

Percebemos que quando mulheres passam a protagonizar espaços que também lhes pertence, vemos muitos pontos positivos. A identificação é a mais importante delas. Ser feminista também é reconhecer que muitas mulheres precisam se cercar de boas referências. E se você tem a oportunidade de assistir ou ler uma história sobre sexo erótico ou pornográfico é importante que a mulher se veja como protagonista. Porque assim como os jovens assimilam o que veem na internet, nós também, e isso independe da idade. Anaïs Nin, Pauline Réage, Sasha Grey e até a E. L. James são exemplos positivos de mostrar a sexualidade pela óptica feminina e isso precisa ser estimulado. Se na literatura temos tais exemplos, é muito interessante saber que no âmbito cinematográfico existem figuras femininas que buscam mudar esse universo. Desconstruindo-o para reconstrui-lo da forma mais fidedigna com a realidade. Mulher também sente prazer. Mulher também assiste pornô. Mulher lê contos eróticos. Sexo nunca foi exclusividade masculina. Spoiler: Nem nunca será. Mulheres continuarão gostando de sexo, de contos eróticos e pornô, mesmo que você não queira ver ou aceitar.

7 motivos para você conferir Gilmore Girls e aumentar sua biblioteca particular

Gilmore Girls (traduzido no Brasil como Tal Mãe, Tal Filha) é um dos poucos seriados feministas que tiveram sete temporadas e que fizeram muito sucesso na época em que foi exibido. Assisti ao seriado quando criança e até hoje sou fã. Muitos títulos de livros sobre feminismo e filosofia aparecem já no piloto da série e continuam a aparecer ao longo dos episódios. Apesar de o seriado ser uma comédia, há bastante profundidade nele. Lorelai e a filha Rory têm uma ligação muito forte. Há muitas personagens mulheres na história que desempenham papéis de destaque. Mas mesmo sendo aquela comédia típica americana, Gilmore Girls surpreende pelo teor filosófico e feminista, não só na fala dos personagens, mas visivelmente falando: algo do tipo - mensagem subliminar com imagens e capas de livros.


Lauren Grahan, no papel de Lorelai (mãe) e Alexis Bledel, no papel de Lorelai (filha, ou apenas Rory).

1. Simone de Beauvoir está em toda parte

As muitas referências à feminista existencialista francesa já aparecem no piloto da série, quando Rory está arrumando o seu armário na sua antiga escola, em Star Hallow.

Livro: O Segundo Sexo (Le Deuxième Sexe)

Em outro momento, podemos encontrar outra referência à Simone enquanto Rory está lendo Memórias de uma Moça Bem Comportada (Mémoires d'une Jeune Fille Rangée), deitada no sofá de sua casa.



O outro momento é quando Rory após arrumar as malas para sua viagem à Europa, depois da formatura do High School, Lorelai faz o seguinte comentário sobre o suéter da filha:

Tradução livre: "Se você usar um olhar mal humorado no rosto, eles vão te confundir com a Simone de Beauvoir".

2. Quando a "Ética" de Espinoza foi discutida em sala de aula

Na Universidade de Yale, o professor Bell pode ser visto discutindo a "Ética", do filósofo holandês Baruch Espinoza. Em outro episódio, Bell (que na história do seriado é um dos filósofos mais conceituados no país) pode ser visto também discutindo a obra de Joseph Campbell sobre Freud.



Além disso, podemos ver sempre ao lado de Rory sua infindável e enorme pilha de livros...



3. Rory é praticamente uma especialista em Nietzsche

Aqui o avô da Rory canta louvores para neta e para a esposa Emily.

Tradução livre: "Esta menina poderia nomear todos os estados aos 3, recitar a tabela periódica aos 4 e discutir a influência de Schopenhauer em Nietzsche quando ela tinha 10.

Em outro episódio, Rory está lendo Escritos Básicos de Nietzsche. Aliás, é muito comum ver cenas da Rory lendo livros gigantescos na lanchonete, na praça, em casa, na escola, enfim, em qualquer lugar.



No dia da graduação de Lorelai, Christopher oferece uma capitalização de U$ 25, um cartão de albergue da juventude, What Color is Your Parachute: A Practical Manual for Job Hunters (Qual a cor do seu paraquedas: um guia prático para trabalhos de caça, em tradução livre), um DVD intitulado The Graduate e ele ainda incluiu um aplicativo para se juntar às Forças Armadas caso "seus sonhos não deem em nada e se Nietzsche não ajudar", ela já teria algo para fazer.

Tradução livre: "O Nietzsche de bolso. Uma leitura leve e agradável".

4. Os pôsteres de Derrida e Chomsky na parede do dormitório

No dormitório de Rory e Paris Geller há um poster do linguista Noam Chomsky e do filósofo francês Jacques Derrida. [Enquanto isso, pessoas "normais" têm pôster dos seus cantores e bandas preferidos colados na parede do quarto]. Vale salientar, que no ensino médio, Rory e Paris não se davam nada bem, agora elas dividem o mesmo dormitório em Yale.


Tradução livre: "Eu não estou sozinha" (fala da Paris Geller ao ser confrontada por Janet Billings por não ter namorado). "Quem você tem além do seu pôster de Noam Chomsky?" 

Ao lado do pôster de Derrida, atrás da Janet, tem outro cartaz com duas frases bem feministas: "Mulheres fortes, América forte".

5. Falando sobre a filósofa russo-americana Ayn Rand

Rory tenta convencer Jess a ler o livro The Fountainhead (A Nascente), de Ayn Rand. No entanto, Jess não quer fazer isso, porque ele detesta Ayn Rand. E Rory percebe que Jess é melhor do que Dean (seu primeiro namorado).

Motivo pelo qual Jess não quer ler a obra de Rand: "Sim, mas a Ayn Rand é uma porca política" (em tradução livre).

6. Lendo Judith Butler

Rory precisa ler o livro Trouble Gender: feminism and the subversion of identity (Problemas de Gênero: feminismo e a subversão da identidade, não traduzido ainda no Brasil), da filósofa Judith Butler, o mesmo que Paris escondeu na prateleira de viagens.



7. Depois de muito tempo, você começa a suspeitar que a Paris Geller provavelmente é marxista

Nesse episódio, quando Paris diz a Rory que fez sexo, temos o seguinte diálogo:

"Eu fui lá, ele acendeu o fogo e nós fizemos. E antes daquele momento nós estávamos conversando sobre o marxismo na América nos dias atuais, o que eu não estava considerando como uma conversa do tipo 'venha e pegue'." (tradução livre).

E em outro episódio, quando Paris lamenta ter que reservar uma mesa para um homem muito rico só para não ser demitida.

"Karl Marx chegou vivo para mim hoje. Eu nunca entendi sobre o que ele estava falando antes. Agora isso parece tão errado: aqueles que controlam o capital fizeram sua fortuna com mão de obra da classe trabalhadora. Aposto que os Romanovs nunca confirmaram presença. Eu a odeio. Eu odeio os ricos. Uma chuva forte vai cair, você sabe o que estou dizendo? Eu realmente a odeio! Eles deveriam morrer!" (tradução livre).

Gilmore Girls é uma série que traz a história de Lorelai, uma mãe solteira que fez vários sacrifícios para cuidar de sua filha. Rory é uma nerd total, mas não é aquela menina nerd estereotipada. Ela ama ler, discutir sobre diversos temas e tem como maior exemplo, a própria mãe. Além das menções a livros e filósofos famosos, Gilmore Girls também faz muitas outras referências a diversos outros títulos, desde títulos de filmes, programas e personalidades. Se esqueci de alguma outra referência literária filosófico-feminista, é só deixar nos comentários. 

9 balelas em se taxar que mulheres são como vinhos

Se tem uma coisa que me tira do sério são textos baseados em senso comum (?) e esses mesmos textos serem lidos e compartilhados e aceitos e exaltados por milhões de pessoas que se não compartilhavam da ideia, agora compartilham. E sequer refletem sobre o que eles realmente querem dizer.

Ontem, li um texto num site de grande circulação que não citarei o nome por questões óbvias. Nem para dar ibope positivo nem negativo. Mas quem quiser saber qual foi o texto, deixarei o título aqui: "9 vantagens de namorar uma mulher mais velha". Acredito que ele pode ter surgido com a melhor das intenções, de fazer com que os homens não fossem tão condicionados a apenas namorarem garotinhas de vinte, mas adivinhem, o texto já começou cagando regra. Como assim? Ora, se eu crio vantagens de se namorar mulheres mais velhas, eu tenho que provar por A+B que essas mulheres são melhores do que as mulheres mais novas. E isso, não é legal, colega... Não se pode exaltar as vantagens de algo em detrimento de outro; neste caso, tentando convencer as pessoas de que mulheres mais velhas são melhores do que as mais jovens e isso é tentar mais uma vez reafirmar o estereótipo de que algumas mulheres são melhores do que outras. E não, isso não está certo.

1. Namorar uma mulher com a cabeça de trinta anos em um corpo de vinte




Primeira cagada do texto. Ok, a pessoa que escreveu isso poderia ter parado por aí, mas não. Ela continuou tentando provar sua tese genial, mostrando que com o avanço das cirurgias plásticas e as facilidades de fazer academia, ou seja, com as oportunidades de se "cuidar e estar em forma", você pode até namorar uma mulher com uma mente de cem anos, do tanto que ela pareça ter vinte na aparência. Oi? Por que ela não pode ter o corpo que ela realmente tem? Ah, tendi... qual a vantagem de se ter 30 anos e corpinho de 30? Não pode, né... Afinal, você de 30 com corpinho de 30 não tem chances de competir com uma de 20.

2. Ter uma mulher com opinião própria




Achei que eles iriam melhorar, mas não. Depois do título, só foi uma cagada atrás da outra. Veja bem, como posso ter a certeza absoluta de que mulheres só terão opinião própria quando forem mais velhas, antes disso, elas são o quê, bonecas Barbie? É como se toda mulher que fosse indecisa, só fosse indecisa até os 20 e poucos, depois disso, ela amadurece igual fruto no pé e num piscar de olhos, voilà, ela é a mulher ideal sem frescura, sem mimimi e melhor ainda, cheia de atitude. Uma coisa que me deixou extremamente chateada e aborrecida foi em como é exaltado que namorar uma mulher mais velha faz o namoro ser mais interessante, porque garotas de 20 anos ainda não desenvolveram opinião. Alguém pode dizer, nossa, Kauanna, você fala isso porque tem 20 e poucos anos, mas veja só, cara pessoa, cada ser humano é particular no universo, o que funciona pra um não funciona pra todos e vice-versa. Existem mulheres indecisas (?), sem opinião sobre nada (?), que são fúteis (?), sim, podem existir, mas dizer que apenas as mulheres de 20 são assim e depois dos 20 isso acaba, por favor, né? Paciência!

3. Fazer sexo de verdade




O que seria então fazer sexo de verdade? E o que seria fazer sexo de mentira? É sabido que 70% das mulheres em algum momento de suas vidas já fingiram um orgasmo e por vários motivos. Ou porque a transa estava ruim, ou porque ela não queria mais continuar e não teve coragem de dizer isso, ou enfim... uma infinidade de motivos que transformam a transa num momento desagradável para essa mulher que finge. Sair por aí dizendo que as mulheres se tornam experts em sexo apenas quando são mais velhas, pelamor, vamos parar de jorrar tanto estereótipo. Dizer que a mulher mais velha já passou da fase de sentir vergonha (oi?) é baseado em quê? Todas as pessoas sabem o que querem ou o que não querem fazer na cama, a diferença é que grande parte delas não é ensinada a dizer o que quer ou o que gosta. Principalmente as mulheres. E isso é independente da idade, mulheres não são ensinadas a gostarem de sexo como homens são. Não existe ainda uma sociedade não machista por aqui, pessoas... Infelizmente, ainda não.

4. Ter uma conselheira exclusiva




Ok. Respire fundo. Mais uma vez, aquele lance, eu namoro uma mulher mais velha, então se eu precisar, ela vai poder me aconselhar sempre. Ela vai cuidar de mim, passar a mão na minha cabeça etc. Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Lamento informar, mas TODAS AS PESSOAS precisam de conselhos. E pessoas de qualquer idade. Reciprocidade é bom e todo mundo gosta. Vamos parar de sair por aí dizendo que tipos de mulheres são melhores e quais não são. Homens não precisam de namoradas que cuidem deles como se eles não fossem autossuficientes para isso. É pra ter uma namorada ou uma segunda mãe? Chega de modelinhos de mulheres isso e mulheres aquilo. Por favor... 

5. Aprender mais do que ensinar




Em primeiro lugar, a vida é um constante aprendizado. Conviver com pessoas de diversas idades são aprendizados, todas as pessoas que passam pela nossa vida, nos deixam algo, ou bom ou ruim, mas deixam. E não, não, não e não! Não existe essa de que pessoas da mesma idade têm troca de aprendizados equilibrada. Pelamor!!! As pessoas têm experiências diferentes ao longo da vida, algumas amadurecem mais cedo outras mais tarde. Não é idade que define isso. Se não, ninguém sairia por aí reforçando, porém justificando, o estereótipo de que homem é um eterno crianção. Não, eles não são. E não, pessoas mais velhas podem nos ensinar muitas coisas, mas não é exclusividade só delas. Aprendemos muitas coisas sempre e o tempo todo.

6. Discutir o relacionamento só quando for necessário




Existe uma cultura que prega, digamos assim, que DR's são chatas ao extremo. E claro, isso só podia ser coisa de mulher. E quando dizem que só podia ser coisa de mulher, é de qualquer mulher. Negra, Branca, Jovem, Madura. MULHER. Discutir a relação pode ser algo chato, mas se um casal precisa discutir a relação é porque algo não está indo bem. Além disso, quando o autor do texto diz que mulheres mais jovens querem discutir por tudo e as maduras só discutem pelo que realmente é necessário, existe um problema aí, sobretudo, quando no fim do comentário é exposta a premissa: de que quando a mulher mais velha faz isso, é pelo bem do namoro. Ok, me explica só uma coisa, genius, por que só a mulher é a única parte da relação que tem que fazer algo pelo bem do namoro e você não? Eu não tenho saco para DR, e olha só uma coisa, pelo texto eu seria a garota de 20 anos que quer discutir a relação por tudo. Desculpem destruir seus modelinhos tão bonitinhos, mas DR não é coisa que as mulheres gostam. Eu não gosto, porque se você está com alguém, é para que tudo siga bem e em harmonia... se tem DR algo nesse namoro é que não anda bem das pernas.

7. Diminuir a probabilidade de ser traído




Vamos tentar entender isso. Primeiro, o que leva alguém a trair outra pessoa? Nesse caso aqui do texto, a idade. Mulheres mais velhas tendem a trair menos. Se existe algum estudo sobre isso? Não sei, mas se for senso comum já está valendo. Mas eu digo, trair alguém não depende de idade. Nunca dependeu. Homens mais novos trairiam mais que homens mais velhos, mas isso não acontece assim. Por que para mulheres isso seria verdade? Mais uma vez, mais senso comum jorrando, transbordando desse texto. Todos sabem que traições masculinas são justificadas porque é instinto, a carne é fraca e por aí vai... Mas mulher trair??? Não pode. Na minha humilde opinião, não acho certo enganar quem te ama, mas traição não é algo inerente com a idade muito menos com o gênero da pessoa. E não... NÃO EXISTE isso de com a idade mulheres traem menos, infelizmente e lamento informar, as pessoas traem porque querem.

8. Ter ao seu lado uma mulher que não está de olho na sua carteira



Existem muitas pessoas interesseiras em dinheiro no mundo. Isso é óbvio. Mas vale salientar que a grande maioria das mulheres de 20 anos já têm seus empregos ou desempenham alguma função remunerada. Logo, homens que estejam preocupados com mulheres interesseiras deveriam mudar seus conceitos, o primeiro deles: parar de pensar que se tivesse um carro do ano, teria a mulher que desejasse. A sociedade cria um modelo de mulher que fica de quatro se o cara tem carro e dinheiro e se o cara é pobre lascado, ele não vai ter mulher, porque é assim que funciona o sistema, né? Não. ERRADO. Isso é apenas estereótipo. Mulher pode o que ela quiser e lamento se você ainda é aquele cara que jura de pé junto que TODAS as mulheres são interessadas no seu dinheiro. Aliás, posso ser cruel agora, mas TODAS AS PESSOAS são interesseiras. A diferença é que alguns interesses são moralmente aceitos, outros não.

9. Parar de perder tempo com frescuras



Ok, essa foi ótima. Veja bem, caso alguns homens não tenham entendido isso ainda, vou dar um exemplo para que entendam. Dizer que mulheres mais velhas não vão ter frescura do tipo, ah, está chovendo, não vou sair porque não quero estragar a chapinha, está redondamente enganado. Qualquer mulher que vai ou que já foi ao cabeleireiro não vai sair na chuva, porque se essa mulher gastou uma pequena fortuna para fazer aquela progressiva, não, ela não vai querer ver o seu dinheiro ir embora com apenas alguns pingos de chuva. ISSO NÃO É FRESCURA. É evitar prejuízos. Afinal, me diz uma coisa, como você se sentiria se perdesse mais de duzentos reais só por causa de uma garoa? Mas se o autor do texto se limitasse apenas a dizer isso, tudo bem... mas não. Dizer que ao chegar aos 30 anos eu não vou mais me importar com o esmalte descascando na unha, que não vou mais me importar se minha calcinha é aquela de usar em casa quando - por um azar do destino - estou com aquele carinha dos meus sonhos, que vou transcender todos esses estereótipos que oprimem as mulheres mesmo antes de elas nascerem, então... já quero ter 30 anos.

Antes que alguém pense que é um texto de revolta. Sim, é de revolta. Revolta porque cansa! Estou cansada de tantos estereótipos infundados sobre as mulheres. De quais são melhores e quais são piores. Isso não é legal. Todas as mulheres que se tornam mulheres são mulheres, elas lutaram e lutam até hoje para serem o que são [e não me refiro às feministas, falo de todas], para terem o direito de ser o que são.

Eu namoro um cara mais novo. Minha revolta inicial foi com o fato de o texto estar totalmente fora da realidade e do contexto social em que vivemos. Certamente, nem Balzac poderia prever que a mulher de 30 anos que ele pintou em seu livro no século XIX seria tão mais "avançada" do que as mulheres de 30 anos de hoje são, acho que ele ficaria chocado. Mas o problemático disso tudo é que se acredita num universo mítico de que as mulheres quando chegarem aos 30 anos serão mulheres cheias de atitude, sem frescura, independentes, senhoras do seu prazer e blá, blá, blá.... tudo isso é conversa. É balela.

Vivemos numa sociedade que reprime a mulher de 20 anos esperando que aos 30 ela esteja "pronta" (?) para ser a femme fatale. Mas não é bem assim que funciona. Dizer que as meninas de 20 têm frescura e falam de seriados de TV, de academia e são cheias de mimimi na cama é encaixar toda mulher na faixa dos 20 anos nessa categoria. Como esperar que uma mulher seja ousada se existe uma sociedade que reprime isso? Não sentar de pernas abertas é apenas bons modos? Tem certeza disso? Como disse antes, não existe uma sociedade não machista nesse planeta que ensina as mulheres desde cedo a serem tão desejosas por sexo quanto os homens são ensinados desde crianças.

Não vivi o suficiente pra afirmar que tenho 30 (espero chegar lá, claro), mas sou uma pessoa bem resolvida com minha vida profissional, com minha vida amorosa e sexual e tudo isso foi um processo e cada experiência é particular. Sair por aí afirmando as vantagens de se namorar uma mulher mais velha só se limita a expor as de 30 anos, mas e as de 40, 50, 60... não têm condições de manter o corpinho de 20 ou fica mais difícil? Além disso, esse texto do qual estou fazendo essas ressalvas sem fim, reafirmam ainda mais que mesmo que você tenha 30 anos, precisa ter um corpo de 20. Envelhecer não pode. Estar de bem com seu próprio corpo aos 70 anos, como a Betty Faria também não pode. O que pode é correr contra o relógio biológico e evitar que os sinais da idade apareçam. Mas eu digo, pode sim se amar como é. Deve.

Se for levar em consideração as experiências que já vivi e coisas pelas quais passei, eu deveria ter mais de 20 anos, mas não tenho. Além da problemática desse texto falar sobre "as vantagens de se namorar uma mulher mais velha", tem outra ainda mais delicada, que é mostrar a superioridade de mulheres sobre mulheres. Mas isso não existe. A mesma sociedade que reprime a garota de 20 é a mesma que reprime as de 30, 50, 70... Diga-me, quantos aí não torceram o nariz quando Suzana Vieira, já com seus mais de 60 anos, casou-se com um bonitão que tinha idade para ser seu filho? Se a ideia do site era fazer algo legal, foi mal, mas não deu certo. Passou longe disso.

Porque ser feminista é um processo de construção

Sempre escuto baboseiras ao meu redor quando alguém descobre que sou feminista. Logo pensam que vou começar com uma infinidade de mimimi e acabar com a diversão de todo mundo. (Suspiro). Eu vejo muita coisa por aí, escuto, leio, assisto... enfim, a gente é bombardeado o tempo todo por coisas boas e coisas ruins. Mas se eu vejo algo preconceituoso que fere qualquer tipo de minoria, eu me arreto. E não é porque eu sou feminista, porque mesmo se eu não fosse declaradamente feminista, minhas experiências pessoais me levariam a pensar como penso hoje. Embora eu não seja cristã (porque não compartilho da ideia de igreja institucionalizada, digamos assim), aprendi partes essenciais (na minha opinião) dos ensinamentos de Cristo que são: não julgar para não ser julgado (e olha que é difícil, mas vivo me policiando) e amar ao próximo (e amar ao próximo é a parte mais difícil de todas, mas é isso o que me faz sentir empatia pelas pessoas e pregar a empatia por todas as partes que eu estiver... uma andorinha só não faz verão, podem até dizer, mas eu sei que já consegui ajudar pessoas a ver as coisas com outros olhos e isso é o bastante para eu continuar fazendo isso).


No meu trabalho escutei quatro coisas absurdas de dois colegas meus. É claro que a gente não sabe bem como agir em algumas situações, tidas como inusitadas, mas quando ouvi isso, meu estômago embrulhou, mas eu não consegui reagir. Não me senti segura o suficiente para rebater o comentário misógino do meu colega. Falando bem sucintamente sobre o que aconteceu: por alguma razão que agora não me lembro, o sicrano estava puto da vida com a coordenadora da escola, mas no início ela era "ah, se ela me desse bola", "ah, se ela me quisesse", mas num passe de mágicas ela virou a mulher "frescurenta" que merecia uma gozada na cara pra deixar de frescura.

Eu estava no carro com ele e mais um outro colega. Senti-me extremamente revoltada, mas não consegui dizer nada. O outro colega o "repreendeu" chamando-o de machista e etc. Mas eu não consegui falar nada. Fiquei com isso martelando dias na minha cabeça, por que eu não tinha conseguindo fazer nada sobre isso? Por que eu não consegui repreender esse discurso misógino que só fere as mulheres? Então eu percebi que ter voz, que se levantar contra algo "errado" requer confiança, que na época eu não tinha. Não vou dizer que mudei e que hoje sou super confiante, mas estou mudando, porque dar voz a si mesma também é um processo e aprendi isso com a vida, com as minhas experiências e o feminismo de cada uma é diferente para cada mulher. E nenhum é melhor do que o da outra.

As três outras coisas absurdas que ouvi lá no trabalho partiram de um outro colega meu e bem mais jovem do que eu e do que o primeiro citado acima. A primeira delas foi a seguinte: estávamos todos largando do expediente quando ele falou:

- Tem uma menina que eu conheço que dava em cima de mim direto, eu nem gostava dela, pense numa menina puta. Eu comecei a namorar e ela insistia, só quando eu disse que não queria nada com ela e que namorava foi que ela parou.

Eu me senti super arretada, pera, como assim???? Talvez ela não soubesse que você namorava ou você nunca disse que não queria nada com ela. Respirei fundo e disse:

- Fulano, por que tu tá chamando a menina de puta? Ela tem nome.
- Eu sei, Kauanna, mas é que ela era muito sem noção, ficava dando em cima de mim e tudo, não se tocava.
- Você não disse que quando falou com ela, ela parou até de falar com você. Se ela respeitou seu direito de não querer nada com ela, por que tu ainda fica chamando ela de puta por aí? Já reparou que mesmo isso tendo sido resolvido ela vai ser a puta sempre, a sem nome, apenas a puta e que você só vai lembrar dela como a puta e qualquer pessoa que ouviu você falar dela vai lembrar dela como puta? Tente se referir a ela pelo nome dela.

No dia seguinte, ele veio falar comigo e disse que se sentia muito mal pelo que tinha reproduzido. Disse que nunca tinha pensado nisso antes e ainda me agradeceu por fazê-lo ver o que estava fazendo de errado. E ainda disse: "eu como cristão, fazendo tudo errado". Gente, eu me senti tão bem ao ouvir isso, porque eu pude ver que sim, que conversar, que tentar mostrar onde o outro tá errado é necessário, não é preciso brigar, sair no tapa, mas conversar. E foi isso que me ajudou a ver que sim, eu tenho confiança e posso fazer algo. E a gente faz a diferença nas pequenas coisas do dia a dia. Com os homens e mulheres do nosso dia a dia.

Jenn Leyva: Ame seu corpo.
 
O segundo episódio envolvendo esse mesmo colega foi quando ele disse (e ele estava bem revoltado) que já era a enésima vez que ia pegar o documento do estágio e sempre tinha algum erro. A culpa de cometer o erro era de uma das funcionárias do RH. Mas ao invés de chamá-la de incompetente (num xingamento mais radical e ofensivo) ou ao invés de usar algum eufemismo do tipo: ela não desempenhou sua função direito, o meu colega soltou o verbo e disse: "Fulana, aquela gorda!". Eu pensei, gente, peraí, para tudo! Como assim??? A guria erra o código do documento e a primeira coisa que a pessoa pensa é em xingá-la de gorda?!!! Eu respirei fundo e disse: "Fulano, eu sei que você está chateado, porque já é a enésima vez que você vai atrás desse documento e sempre tá errado, mas olha, na boa, se você quer reclamar da incompetência da fulana, chame-a de incompetente e não de gorda", ele ainda tentou se desculpar dizendo que foi só uma expressão, mas não, não é. Ele ficou meio constrangido quando eu disse isso, e até se desculpou, mas não era bem comigo que ele deveria se desculpar, mas isso já é outro processo.

Sobre ser gorda, eu não sou, mas também não sou magra e não, eu não me encaixo nos padrões tão anoréxicos de corpo feminino ideal, mas eu me dou bem com o meu. Nunca fiz dietas loucas, pois mesmo que alguma parte de mim se importe com isso, sinta vergonha de sair com tal roupa na rua, porque vai mostrar a minha barriga nada sexy, eu paro e penso, por que eu to preocupada com isso? Eu gosto de comer e comer é um dos melhores prazeres da vida e não vou me privar disso porque a sociedade e as pessoas querem. O que importa é a minha felicidade. Meu corpo não tem que ser bonito pra ninguém, tem que ser apenas bonito pra mim. Eu me olho no espelho hoje e gosto do que vejo. Eu gosto. Eu. E eu NÃO posso depositar na avaliação de terceiros a minha felicidade e autoestima.

O último episódio estrelado por esse colega foi o seguinte, como sempre, só escutei a conversa, mas não pude deixar de intervir.

- Tem uma menina no meu curso que dá em cima de todo mundo, pow. Isso é coisa de rapariga. Agora ela cismou comigo e fica dando em cima de mim direto. Disse que quer transar comigo.
(outro colega): - E qual o problema?
- Cara, ela tinha um namorado e ela mandava nele e não aceitava que ele era cristão e só queria as coisas do jeito dela.
Intervi: - Fulano, assim, qual o problema da guria desejar transar? E por que você leva mais a sério o que o ex namorado de uma garota fala sobre ela do que o que ela mesma diz? Você já procurou saber da própria fonte?
- Mas Kauanna, ela é doida, odeia cristãos e fica se oferecendo.
- Primeiro: oferecido é algo que alguém te oferta por educação. Se ela disse que quer transar com você ela não está se oferecendo, ela só quer transar com você e se você não quer diga que não quer e pronto.
- Mas ela é louca!!
- Fulano, ela tem todo o direito de ser bem resolvida com a sexualidade dela. Se você não gosta dela, diga que não gosta, ou se for muito difícil convide-a para visitar a sua igreja e problema resolvido. Só não fique julgando a menina de rapariga ou de louca, por favor.
Alguns podem estar se perguntando, mas o que tudo isso tem a ver? Tem a ver que ninguém se torna feminista de uma hora para outra. E que se intitular feminista não é ser detentora da verdade absoluta e suprema. Que ser feminista não é odiar os homens e nem as mulheres que não se consideram feministas, ser feminista é um processo e esse processo pode ser contagiante e edificante, já que pessoas podem se tornar melhores através dele. E se pessoas se tornam melhores, o mundo também se torna melhor.

Pela descriminalização e legalização do aborto

Particularmente, acredito que o Brasil ainda é um país que não tem maturidade política e social suficiente para discutir sobre o aborto. Não só sobre o aborto, mas discutir assuntos tão polêmicos quanto, como por exemplo, legalização da maconha, racismo, violência doméstica etc. Estamos vivendo um cenário político totalmente diversificado, no qual em toda a história da política brasileira nunca houve tantas candidatas mulheres à presidência da república e com expressão popular (vale salientar que não discuto aqui qual candidata é a melhor, mas enfatizo essa grande conquista no cenário político nacional), no entanto, apesar disso, não há nenhum tipo de discussão sobre o aborto ou qualquer um dos temas supracitados.

Também não venho aqui discutir posições religiosas ou ideológicas, o fato é que o aborto é um assunto que precisa/necessita entrar em pauta de discussão. Independentemente das opiniões pessoais: ser contra ou a favor e independentemente de religião, o debate sobre o aborto deve se tornar mais amplo e conscientizador.

Num dos maiores levantamentos feitos sobre o tema no Brasil, 22% das mulheres (ou seja, 1 em cada 5 mulheres com até 40 anos), já fizeram um aborto. E não pense que a maioria é de apenas mulheres jovens em idade adolescente e nem mulheres mais velhas, mas mulheres em idade ideal para reprodução, dos 18 aos 29 anos.

Segundo a antropóloga Debora Diniz, da Universidade de Brasília, que desenvolveu esse estudo, a maioria dessas mulheres são casadas, religiosas, com filhos e baixa escolaridade. No entanto, o que as motivam a fazer isso, de acordo com a antropóloga, é que elas já têm a experiência da maternidade e a convicção de que não podem ter outro filho no momento, e embora arrisquem não só suas vidas, elas preferem correr o risco de serem presas a manterem a gravidez.

Embora muita gente não queira abrir os olhos para essa questão e utilize de argumentos cruéis e mesquinhos do tipo "na hora de abrir as pernas e revirar os olhinhos não doeu" conferindo à mulher a responsabilidade única e exclusiva de engravidar, a verdade é que o aborto é sim uma questão de saúde pública.

Além disso, a legislação vigente que criminaliza a prática gera outro problema ainda maior: o aborto é tido como crime, mas ele existe e é praticado por muitas mulheres e grande parte dessas mulheres morre nos leitos dos hospitais por causa de complicações em consequência da curetagem uterina mal feita (em clínicas clandestinas) ou em consequência de restos de aborto realizados de forma caseira. Mas essas mulheres que morrem, geralmente, são mulheres negras e pobres, que não têm condições financeiras de viajarem para fora para fazer o aborto em países onde o aborto é legalizado ou de pagarem uma clínica segura no qual o médico colocará no laudo que tudo foi um procedimento normal e de rotina.

Um caso recente disso foi o da jovem Jandira Magdalena dos Santos, que desapareceu desde que procurou uma clínica clandestina para fazer um aborto. É provável que ela esteja morta e jogada em algum lugar, no entanto, a maioria das pessoas que souberam de sua história não têm sequer um pingo de compaixão pela moça que desapareceu, muito pelo contrário, até acham que foi a punição merecida por ela ter cogitado a ideia e ter pagado para abortar. Mas vale salientar que essas mulheres que morrem todos os anos ao fazerem um aborto clandestino são as mesmas que votam, mas quando elas morrem por causa disso, nenhum representante político lembra dela como ser humano e nem a própria população.

Mais motivos que precisamos para discutir sobre o assunto. Aqui não cabe mais posicionamentos meramente políticos ou ideológicos, mas humanitários. Não podemos fechar os olhos para essas mulheres que morrem sem atendimento adequado nos hospitais por terem praticado um aborto. As que não procuram as clínicas clandestinas, fazem uso de medicamentos ou drogas abortivas que muitas vezes provocam hemorragias e elas podem sangrar até morrer.

Apesar de muita gente ignorar, o aborto é praticado há séculos. Mesmo aquelas mulheres que não procuram clínicas clandestinas ou fármacos abortivos, encontram na sabedoria popular (medicina popular) outras formas de provocar o aborto. O que faz com que percebamos que por mais que se proíba, sempre existirá uma mulher que irá fazer um aborto e que poderá morrer fazendo isso. Mas mesmo assim o aborto é considerado uma prática clandestina recoberta de tabus e preconceitos.

Insistir em ver as mulheres apenas como corpos meramente reprodutivos sem autonomia sobre o mesmo, é relegar mais uma vez essa discussão à obscuridade do discurso religioso e conservador. Assim como houve a campanha por uma mudança na nossa Constituição com o Plebiscito Popular, por todos nós sabermos que a realidade em que vivemos não se reflete na legislação, a legislação vigente não dá conta da diversidade social em que as mulheres atualmente vivem. Impedir a autonomia sexual e reprodutiva da mulher é insistir no capitalismo afundado de que mulheres têm que (re)produzir mais e mais mão de obra para o mercado.



Mas ainda para aqueles que falam que o aborto só deve ser permitido em casos de estupro, anencefalia ou em que a gestação ofereça risco de morte à mãe, ainda assim o aborto não deixou de ser um crime. A mulher, nesses casos, não é punida, no entanto, a realidade nos mostra que apesar da garantia (?) de poder abortar apenas nessas condições, a mulher enfrenta uma batalha judicial enorme, além disso, nem todos os hospitais fazem o aborto. E a mulher que necessita do aborto nesses casos, sequer sabe que hospitais ela pode ir para realizá-lo.

Outro embate que impede a discussão do tema são as eleições. A candidata à presidência pelo PT, Dilma Rousseff declarou que durante sua campanha (e futura gestão caso ganhe, e esperamos que não), ela não tocará no assunto. Os demais candidatos não tangenciam sequer o tema, apenas Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV) abraçam a bandeira da legalização. Por abraçarem essa causa, os números apontam que a preferência popular por esses candidatos é muito pequena. Já que os candidatos a favor da legalização, perdem votos.

Mas por que é tão importante e urgente discutir sobre esse assunto? Porque o aborto nunca deixará de ser praticado. Ou o aborto físico por parte da mulher, ou o aborto social por parte do homem, a verdade é que o aborto não deixará de ser praticado nunca e isso é fato.

O que devemos, no entanto, é impedir que a mulher também morra nesse procedimento. Vimos que nos países em que o aborto é legalizado, o índice de mulheres que abortam não só diminuiu como também aumentaram as taxas de prevenção não só da gravidez indesejada como também de DSTs, ou seja, se alguns acham que a descriminalização do aborto só transformaria o aborto em uma prática banal, vocês se enganam e muito. Além disso, o Uruguai, por exemplo, teve o índice zero de morte materna por causa de aborto. Outro exemplo é Cuba, onde o aborto é legalizado desde 1965 e é o país com o menor índice de morte materna.

Além disso, o aborto clandestino é a 4ª causa de morte materna no Brasil, um caso alarmante quando 74% do mundo todo já legalizou o aborto. Ainda vale salientar que os casos de internação nos hospitais por causa de aborto superam os de câncer de mama. Mais uma vez, eu repito, o aborto é sim um caso de saúde pública.

Não dá para fazer de conta que ele não existe. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 1 milhão de abortos são realizados no Brasil. Um milhão que são declarados e os que não são?

Milhares de mulheres morrem todos os anos, muitas desaparecem, outras estão arriscando suas próprias vidas pelo direito de escolher e você faz de conta que isso não acontece, mas puxe pela memória, todos nós conhecemos alguém ou ao menos já ouvimos falar de alguma mulher que abortou, ou seja, estamos mais próximos dessa realidade do que imaginamos.

Outro caso mais recente é o da dona-de-casa Elisâgela Barbosa. Mulher de 32 anos, negra, pobre e mãe de três filhos que não podia sustentar uma quarta criança. Se fosse um aborto seguro, seus filhos não estariam órfãos e nem a mãe de Jandira Magdalena estaria enterrando sua filha.

É por causa da morte dessas milhares de mulheres todos os anos no Brasil e nos 26% do mundo que não legalizaram o aborto, que a campanha do blog 28 dias pela vida das mulheres existe. A não descriminalização e/ou legalização do aborto além de matar mulheres pelo mundo a fora, é também uma grande violência contra elas.

O dia 28 de setembro é o dia Latino Americano de Luta a Favor da Descriminalização e Legalização do Aborto. É pela vida das mulheres e pelo direito de escolha, é porque o Brasil precisa discutir sobre o aborto o quanto antes e tomar providências.



Leia mais sobre isso em:

[+] O aborto ilegal é uma violência contra as mulheres - 28 dias pela vida das mulheres
[+] Da necessidade de militar (e do direito de abortar) - Simone da Silva Ribeiro Gomes
[+] O que é aborto? - Érika Pellegrino
[+] Pelo aborto legal, gratuito e fabuloso - Clara Cuevas
[+] Legalização do aborto, pela vida das mulheres - Lola Aronovich (2013)